domingo, setembro 27, 2009

Transitando

Transitando
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Daqui eu consigo ver claramente, como se eu estivesse lá, um bando de crianças pensando que o mundo era aquela escolinha de bairro. Trafegando por ruas desenhadas pelas professoras e aprendendo como devemos nos comportar no trânsito daqui há alguns anos, quando a maioria de nós estará tirando sua carteira de habilitação. Vermelho! Parei, não tenho pressa, estou me divertindo. Verde! Siga, mas sempre respeitando o limite de velocidade. Correr pra quê? Tenho a vida inteira pela frente.

Alguém já disse que tudo o que a gente precisa saber na vida aprendemos no Jardim da Infância. Hoje, com dois dígitos na minha idade eu tenho que admitir que é verdade e mais do que admitir louvar esse sábio. Há alguns meses eu tive a prova definitiva disso e na ocasião da semana do trânsito, eu me lembrei de compartilhar com vocês.

Estou no final da primeira década do século XXI, deixei há alguns anos a escolinha de bairro. Milhões de compromissos e este servo que vos fala tentando dar conta de servir a três reis, motorizado pelas ruas do Recife, brigando com o relógio e rogando que ela corra mais devagar. Na ânsia por tentar realizar o milagre de estar em dois lugares na mesma hora, um sinal fechando é como inimigo que precisa ser vencido, ou me abaterá no campo de batalhas. Passei! Nem passou pela minha cabeça aquela manhã na escolinha perdida no porão do passado. Passei! Mas estava fechando, não estava fechado. Passei! Cheguei na hora prevista, pra correr de novo e correr e correr. De tudo isso restou 7 pontos na carteira e uma multa amarga.

Já disse várias vezes a mim mesmo que preciso diminuir o ritmo, mas por outro lado tento me acostumar como esse tomo contemporâneo já que se fosse caminhar no ritmo que eu queria não sei se conseguiria pagar minhas contas. Ah! Que saudade da aurora da minha vida, quando tudo era de brincadeira, até multa de trânsito.

sexta-feira, setembro 25, 2009

O Aquário

O Aquário

Alguns poucos leitores, bem poucos mesmo, cobraram explicações sobre o aquário que eu simplesmente um dia coloquei na estante do blog, aqui do lado, esse mesmo dos peixinhos verde e amarelo. Em respeito aos poucos curiosos eu vou dedicar alguns bytes a esse assunto.
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O Aquário foi uma sugestão da Divisão de Marketing e Ações Estratégicas da administração do Blog. Eu relutei muito e derrubei muitos dos argumentos desses marqueteiros com um simples “O Blog é meu e eu não quero”. Depois de exaustivas 4 horas de reunião e sob o efeito de alguns truques hipnóticos, eles me convenceram a colocar o aquário no ar e deixar por um mês, em caráter de teste.
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Ao final de um mês, a D´MAE apresentou um relatório que trazia dados até da preferência dos leitores com relação a peças íntimas. Os números comprovaram um aumento monstruoso nas visitas ao Blog. De acordo com um histórico de conexões, perceberam que as pessoas passavam horas no Blog brincando com os peixinhos, fazendo eles seguirem o ponteiro do mouse, ou simplesmente dando um clique no aquário e jogando comida para os coitados..
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Senti-me profundamente desprivilegiado vendo que as pessoas preferiam ficar brincando num aquário enquanto eu desfilava o mais fino da minha cultura suburbana. Ao contrário do que podem pensar, quero que deixem o aquário ai, ele será meu concorrente e meu desafio a partir de agora é tirar a atenção das pessoas dessa diversão nonsense. Veremos que ganha: O Blog ou o Aquário?

quarta-feira, setembro 16, 2009


Doce Tortura

Hoje que a noite está calma e que minh´alma esperava por ti... Quando alguém engata esse versos num encontro regado a muito álcool logo é acompanhado por um coro que continua a música numa louvação a breguiçe do amor, do sofrer por amor. Porque o leitor há de concordar que não existe nada mais brega do que um homem apaixonado. A mulher apaixonada é uma Madame Bovary e o homem é um Waldick Soriano.

A música se chama Tortura de amor, atribuída a o ícone do Brega Sir Waldick Soriano. A canção é muito bonita e só não alcançou o status merecido no cancioneiro nacional porque saiu da caneta de um homem rústico de chapéu de aba larga e roupas extravagantes. Hoje a música é trilha de prostíbulo ou de fossa de homem traído, mas a letra é de uma delicadeza que só pode ser percebida se a escutarmos para além dos esteriótipos que puseram nela. Uma ótima chance para fazer isso é ouvir a regravação que o grupo português Clã fez desse sucesso em 2007, com a voz tocante e afinada da revelação Manuela Azevedo, num cult-fado-jovem. Vale a pena!

Quero ternura nas nossas vidas, quero viver por toda vida pensando em ti” diz um dos versos de Waldick. Esse romântico inveterado que foi recentemente homenageado com um show e um documentário dirigido por Patrícia Pillar. Essa justa honraria, que veio pouco antes da sua morte, é um trabalho obrigatório para aqueles que torcem o nariz para a figura de Waldick, porque só quem amou de verdade sabe que o amor acima de tudo é brega.

Ouça aqui a canção com o grupo Clã



terça-feira, setembro 08, 2009

Mijaram em Bilac

O povo do Recife tem fama de ser...digamos “tropical” para não dizer anti-cívico ou pouco zeloso com a coisa pública. Ocorreu esse pensamento quando passava por uma praça próxima ao Parque 13 de maio, na boca da madrugada e vi um notívago, em visível estado alterado, fazendo suas necessidades ao pé do busto do poeta Olavo Bilac. Para ser bem claro, o indivíduo mijou num dos poetas mais célebres e talentosos da literatura brasileira.

Não vim aqui para partir em defesa de Bilac ou atirar pedra no transeunte com aquele papo de cidadania, depredação, vandalismo..., estou somente chamando atenção para essa cena hilária e significativa. No meio de uma praça, Bilac olhando as estrelas do céu do Recife e um bebum regando seu busto. Nem os mais anarquistas do modernismo imaginariam protesto tão irreverente.

Para Olavo Bilac, eu tiro meu chapéu. O Brasil ainda vai redescobrir o valor desse poeta, que nos tempos áureos já recebeu o codinome de Príncipe dos Poetas e depois do furacão dos Andrade (a saber: Mário, Oswald e Cia.), virou sapo caduco da nossa poesia, símbolo do arcaísmo careta.

Mais o poeira do modernismo baixou e no fim da festa, os leitores começaram a enxergar a beleza e o sentimento que pulsa nos versos quadrados e nas rimas preciosas desse ourives da literatura brasílica.
Um dos sonetos que eu mais gosto de Bilac é Ao coração que sofre, escrito no início dos anos de 1900. Essa predileção de agora está diretamente ligada a fase de melodramático pela qual estou passando.
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Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.
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Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.
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E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;
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E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.

Ruy Castro, no final dos anos 90, escreveu um livro muito divertido em homenagem a Bilac, na verdade uma biografia de ficção com o título Bilac vê estrelas. Vale a pena ver descrito fielmente o início do século XX onde tudo se passava na porta da Confeitaria Colombo. Outros tempos, caro leitor, imagine se Bilac, entornando seu chá da tarde, visse pelo seu monóculo alguém tirando água do joelho bem ao pé de seu busto. Viva a pós-pós-moderninade!

quarta-feira, junho 17, 2009

Assim falou Jesús

Um dia meu pai me perguntou que planos eu tinha para o futuro, quando tentei responder, confundi planos com sonhos e ele me interrompeu enfatizando que queria saber o que eu tinha de planejado, programado, traçado. A pergunta me pegou de surpresa como a muitos adolescentes na idade que eu tinha na ocasião. O medo de ver planos frustrados me fez ter aversão a esses projetos de vida e até hoje eu passo os dias planejando no máximo o que vou fazer na próxima semana e continuo a sonhar muito e ao contrário do que poderia pensar meu pai, a vida tem colocado em meu caminho muitas felicidades e o melhor: a surpresa do inesperado, do não projetado, do não programado.

Foi assim que me veio hoje as palavras de um certo professor de Filosofia, de nome Jesús Vásquez, durante a entrevista que deu ao programa de rádio que produzo. Ele disparou como um gatilho em mim pensamentos que nunca atinei e estavam ali impressos em minhas ações ou nas bobagens que publico neste blog, porque segundo Jesús, não o de Nazaré, “Tudo está programado para a gente não pensar, simplesmente fazer, se movimentar”. Sobre os planos de vida ele disse com seu sotaque carregado do norte da Espanha “Nós escolhemos poucas coisas na vida, o que escolhemos é senão o que fazer com o que vai surgindo em nosso caminho” e defendeu que o destino é uma conjunção de todas as nossas ações que vão abrindo veredas no futuro e aquela máxima de “querer é poder” é uma ingenuidade. O leitor pode estar como eu surpreso dizendo a si mesmo “como não pensei nisso antes?” ou simplesmente parando na metade do post e indo embora.

Um ouvinte numa hora provocou Jesús perguntando sobre a popularização da filosofia e o professor, tal como seu chará mais conhecido, chocou dizendo que a filosofia não serve pra nada, mas explicou logo em seguida, que o problema não é da filosofia e sim da sociedade que quer tudo funcionando como meio para alcançar alguma coisa palpável. Acrescentou que as coisas mais importantes da vida não servem pra nada, o amor não serve pra nada. Foram essas as palavras de Jesús que eu resolvi levar a todo povo e a toda gente. “Ide e postai!”

terça-feira, junho 16, 2009

Insônia
Há muitos anos não tinha o deleite de cruzar uma noite insone. A última delas, se a memória não me falha, me lembro de ter devorado um livro de piadas de Ary Toledo ou coisa do tipo. As noites de insônia costumam mudar muito a minha vida, pois é como se a vida me desse um freio e me jogasse num nada onde eu sou obrigado a pensar em tudo o que eu estou fazendo, fazendo, fazendo... A casa mergulha num silêncio fúnebre e a proximidade dos cômodos, somado a meu respeito pelo sono alheio, faz com que eu evite ligar a TV, procurando os Corujões da madrugada.

Ai eu paro. Repasso a agenda de amanhã na minha cabeça, faço planos para as próximas férias, dou minha opinião sobre as manobras políticas para fazer brotar a PEC do terceiro mandato de Lula, prometo ligar para aquela pessoa que há uns 3 anos foi muito importante na minha vida e eu não vejo mais, digo pra mim várias vezes que eu tenho muitos motivos pra dizer que sou feliz, penso em que cor pintar o quarto da próxima vez, prometo voltar a estudar pintura, ou aprender um instrumento...

Sinceramente queria ter mais noites de insônia na minha vida, como esta que estou tendo. Sem sono, no quarto, você não pode fazer nada, nada... você simplesmente planeja, sonha acordado, lembra das alegrias, lembra de quem você era. É como olhar a vida em slow-motion. Não sei se amanhã, quer dizer hoje, ou melhor, daqui a pouco, eu vou começar a fazer tudo diferente, posso até ter um dia de cão por esse sono acumulado que não tirei, mas foi bom ver cada hora da madrugada passar, ver a aurora que inspira os poetas entrar no meu quarto timidamente e vencer o impedimento da cortina...

Já são quase seis da manhã, o jornal já chegou, vou voltar pra cama e levantar como se tivesse dormido horas a fio para não perder a deixa da minha rotina, ligar a cafeteira, escovar os dentes, sentar na privada e ler as notícias do dia... Bom dia!

terça-feira, maio 12, 2009

O Orkut da Princesa Isabel

Num 13 de maio desses por ai, uma senhora de reputação imaculada, casada com um legítimo conde francês, foi encurralada por uma dezena de gaviões de um império tropical e assinou uma lei que libertava, com muito atraso, os negros escravizados nesses confins. Você deve estar dizendo: “senhor cronista, conheço essa história como conheço o martírio de Jesus Cristo no calvário!” E eu respondo que vou me abster unicamente desse resumo e partir logo para o que interessa.
Nessa idas e vindas pelo cyberespaço deparei-me com o perfil do Orkut de ninguém menos que a Princesa Isabel Cristina Leopoldina Augusta Miguelina Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon, conhecida nos livros de História como simplesmente Princesa Isabel, a libertadora. Sua Alteza assumiu o trono brasileiro algumas vezes enquanto seu pai O Imperador D. Pedro II, gastava a cota de passagens viajando pela Europa.
O Orkut da Princesa Isabel é um sucesso, considerando que ela é uma senhora quase bicentenária, tem muitos amigos adicionados de todas as tendências políticas, tem de Helena de Tróia até George Walker Bush, passando por Getúlio Vargas e Maria Antonieta de França. As comunidades da qual Bebel faz parte são das mais variadas: uma exalta as belezas da cidade de Petrópolis, outra fala do orgulho de nascer na Cidade Maravilhosa em outra comunidade, discussões inflamadas defendem a volta da monarquia ao Brasil (espertinha hein Bebel!) A Princesa se arrisca até em participar de uma estranha ONG com o nome Associação da Causa Imperial. Meu Deus!
O álbum do orkut da Princesa Isabel é de emocionar, belíssimas fotos recuperadas dela com seus parentes, além de um ensaio com fotos da nossa Princesa em várias épocas, um pitel!
Não resisti e deixei um recado para a musa dos abolicionistas dizendo assim “Olá Alteza, ainda curte um batuque, um ziriguidum? Sai desse canjerê ai e cai no Maracatu, sem dengo, porque a sambada vai ser das boas e vai ter vatapá, abará, acarajé com dendê, angu. E ai? Topas ou não Topas?”
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Perfis como esse fazem parte de um trabalho muito criativo de um professor de História que pediu que os alunos pesquisassem a vida de personalidades da História Mundial e cada um criasse um perfil no Orkut para sua personalidade. O resultado é interessantíssimo, dêem uma busca no Orkut pela comunidade “Meu “eu” Histórico”.

quarta-feira, maio 06, 2009


Conto datado

Logo que chegou do Arkansas, Odília teve que ir correndo cumprir a obrigação de contar a sua Tia Laurinha como fora maravilhosa a sua estada na América e como ela agradecia a sua generosa ajuda em custear parte do valor da passagem de volta ao Brasil, mesmo que tudo isso fosse mentira e que Odília estivesse absurdamente cansada para agüentar os qui-qui-quis de sua tia que avisou várias vezes ao pai da garota com sua voz de taquara rachada: “Vou ficar muito sentida se Odília não vier me ver logo que chegar dos Estados Unidos”.

Odília mentiu muito naquela tarde com sua tia, falou que a cidadezinha onde o diabo deu o último suspiro de cansaço era um agradável povoado com gente simples e acolhedora, uma paisagem bucólica e um clima confortável. Esqueceu de mencionar o fato de ter sido enviada pela agência de intercâmbio para uma fazenda onde não se falava em nada a não ser na produção de Leite da tradicional propriedade de Mr. Torks e na qualidade do seu produto que chegava em 9 das 10 mesas da cidade de Litlle Rock. Odília também deixou de falar que contou os dias para acabar o seu intercâmbio, não por saudades do Recife, mas por não suportar a mesma vista na janela todos os dias e por ter aprendido só meio porcento do idioma do país já que esse era o arsenal de palavras que os moradores da Fazenda dos Torks usavam. Odília encerrou a conversa com a tia entregando-lhe uma lembrança do Arkansas: a foto recuperada da avó de Mr. Torks na Fazenda da família tirando...Leite.

Odília saiu da casa de Tia Laurinha desesperada por uma boa e típica refeição pernambucana, depois um delicioso banho de água quente para matar as saudades de uma ducha térmica, que ela já tinha esquecido que existia. Decidiu ir passeando pelas ruas do subúrbio para respirar o ar revigorante da Cidade Maurícia. Quando finalmente chegou na rua onde morava viu na porta de casa uma ambulância, pensou mil coisas, correu e ouviu uma vizinha nova gritar “é ela!”. Como numa operação para prender criminosos, o grupo de jaleco se aproximou de Odília, trazendo máscaras cobrindo o nariz e a boca. Uma delas chegou perguntando com voz de menina “Você está se sentindo bem?”. Odília disse que sim e perguntou porque haveria de estar se sentindo mal. A mulher com voz de menina e jaleco, que parecia ser a médica da equipe, avisou que a garota teria que ser levada para o Hospital a fim de ser examinada para confirmar ou não a suspeita de contágio da Gripe Suína. “Gripe Suína? Mas isso chegou aqui?” A médica respondeu que não, mas esse procedimento era para que justamente essa peste não se espalhe pelo país. O pai de Odília chegou nesse momento e negou-se a colocar a máscara que o enfermeiro lhe ofereceu, nessa hora a rua inteira já estava empolvorosa com a movimentação, e o pai da garota disse: “Querem levar você internada só porque você veio dos Estados Unidos, filha”, a médica retrucou dizendo que o pai havia informado que a menina voltou dos EUA espirrando. “Mais eu espirro sempre quando estou nervosa, só estou me sentindo cansada, cheguei hoje de madrugada.” alertou a garota. De nada valeu. Levaram Odília para o Hospital e até agora a informação que temos é que ela continua internada, podendo ser visitada apenas pelos médicos que estão acompanhando seu caso. O pai de Odília fez até promessa de largar as duas doses de Wisky que tomava religiosamente aos sábados se a filha sair do Hospital e mesmo a garota avisando que estava se sentindo perfeitamente bem, os médicos mantém a clausura respondendo sempre que a paciente está “em observação e que o vírus pode se manisfestar a qualquer momento e é bom que ela fique longe do contato com outras pessoas”.

domingo, janeiro 11, 2009

De cara com Monga

Com 20 janeiros e mais um pouquinho, já está mais do que na hora de confessar alguns traumas, até para exorcizá-los de vez. Vou começar por um que me atormenta até hoje: o arrependimento de nunca ter suplantado meu medo de conhecer Monga, a mulher macaco. A mitológica criatura, ainda hoje, é o símbolo dos meus medos. Toda vez que penso em amarelar, Monga aparece.

Tive inúmeras oportunidades de entrar no container escuro onde a tosca boazuda virava um gorila horrendo, todo parque de diversões tem. Hesitava, me encorajava, chegava na porta e voltava. Já cheguei até a pagar ingresso e voltar da porta, pedindo que um primo meu fosse no meu lugar, pra ver pela terceira vez naquela noite a metamorfose de Monga. Eu me sentia tão frustrado em não conseguir vencer aquele medo dentro de mim.

Pra encerrar essa história do passado, a oportunidade surgiu na última festa de Nossa Senhora da Conceição, onde sem querer, descobri um parque que ainda mantinha a tradição, pouco em voga, de promover os shows horripilantes de Monga. Agora era hora. Monga estava ali dentro, uma fila pequena, gritos lá de dentro de dali a pouco a leva de espectadores antes da minha, sai do baú de um caminhão em debandada por uma escadaria pouco confiável quando se imagina o estado que as pessoas dessem por elas, várias vezes em uma mesma noite.

Chegou a minha vez. Já conhecia em detalhes o truque de espelhos que gerava aquela ilusão, mas na hora preferi esquecer e voltar a ser aquele menino amedrontado com os pelos que surgiam do corpo de Monga. O lugar era apertado, abafado, escuro, quente e com um cheiro horrível. Nada que me fizesse desistir daquele intento que poderia terminar comigo atracado ao macaco, esbofeteando o dito cujo para descarregar meus traumas. Vi o espetáculo, me lembro de ter rido algumas vezes, fui um dos últimos a sair do grupo, fiquei com vergonha de ficar olhando parado o macaco tentando destruir sua jaula. Naquele noite dormi e me acordei muito melhor.

quinta-feira, dezembro 25, 2008

Tributo ao Trema

Muitos defensores e puristas bradaram aos quatro ventos e em todos meios tentando salvar o trema da degola, mas de nada valeu, 2009 vem ai e com ele a saudade desse sinal garboso que contribuía na pompa do nosso vernáculo. Os mais românticos e saudosistas adoradores da última flor do Lácio choram como se chorassem a partida de um ente próximo, enquanto outros mais arredios já anunciaram em seus msn´s e comunidades de Orkut: “Uso trema até morrer”. Por aqui, esse errante arranhador de vocábulos, se contenta em fazer um simplório discurso funério, antes quen esse sinal míngüe de uma vez por todas, como conseqüência do enxagüe da nossa língua mãe e toda sua grandiloqüência lingüística, peculiar a esse antiqüíssimo idioma, vilipendiado por um bando de eqüinos inconseqüentes e deliqüentes, que deram um qüinqüênio para o trema sumir do mapa. Ah, se me deixassem argüí-los, eu os perguntaria o porquê dessa iniqüidade, perdoem o descontrole e obliqüidade do meu discurso, mas entendam a minha dor ao ver um amigo que considero como consangüíneo meu, se desmilingüir dessa maneira. Terei de recorrer aos escritos antigos para matar as saudades daqueles dois pontos eqüidistantes que enfeitavam os U´s tantos nas terras brasílicas quanto no lado bangüê, não sei se vou agüentar ver o Anhangüera sem os dois pontinhos, e como se sentirão os pingüins, sem o trema no seu cotidiano semi-aqüífero. Choro eu, afável companheiro, junto com nosso idioma ferido e ensagüentado diante dessa regra inexeqüível, fruto da delação de um desses alcagüetes que não se contentam em deixar quieto o que ai está. Eles que não inventem em mexer com a crase!

sexta-feira, novembro 21, 2008

A Pomba e o Crime

Pois é, distintos e fiéis leitores, esse mundo de meu Deus não pára de enviar matérias para nosso Blog, mesmo que eu dispusesse de uma redação entupida de menestréis anarquistas, conseguiríamos dar conta das mugangas que aparecem aos montes por ai.

De passagem por alguma dessas comunidades carentes, onde o sol da justiça social não bate, percebi uma coisa que me pareceu tocante de cara e somente 3 ruas depois me deixou com a pulga atrás da orelha: Todas as casas da comunidade traziam, à vista de quem passasse, a escultura de uma pomba de gesso. Perguntei discretamente a meu “guia” e ele me esclareceu falando entre os dentes que aquilo se tratava do símbolo de adesão ao comando do “dono da ilha”. Um espécie de mini-caudilho, misturado com chefe de milícia que tomava conta do tráfico no povoado.

É isso mesmo leitor, temos uma comunidade na cidade que usa a pomba (aquela branca da paz) como símbolo do crime organizado. Eu já vi caveira, metralhadora, até o personagem Taz já foi símbolo de facção criminosa, mas uma pomba! Pra mim é a ironia levada ao extremo. Eles estão é debochando de quem vai pra praia de Boa Viagem, vestido de branco, com Nando Cordel pedir paz.

A Facção da Pomba tem tudo: infra-estrutura moderna, plano de incentivo a boa convivência entre os funcionários, treinamento e pasmem ai, tem até plano empresarial em empresa de telefonia celular. O risco lá é que a rescisão contratual ou qualquer pendência com a chefia é pago com a vida. Ah! Mas vá lá, a vida não ta valendo essas coisas todas nos dias de hoje, tem potranca da Facção da Pomba que disse estar achando até bom morrer, porque só assim se livra da dívida do cartão da C&A.

segunda-feira, outubro 27, 2008

O que fizeram com as tragédias?

Já foi-se o tempo em que as tragédias tomavam de nós um simples muxoxo de espanto ao folhear as páginas dos jornais que narravam degolamentos, envenenamentos de famílias inteiras, assassinatos cruéis de enteados infantes. Depois de ler aquelas atrocidades, que sempre aconteciam longe de nosso lar, seguíamos para as nossas obrigações diárias e no fim do dia sentávamos ao sofá a espera de nos entretermos com as histórias das telenovelas. Sim, por que antes lugar de drama era na novela, não no Jornal Nacional.

Hoje a notícia pura e simples não basta tem que vir acompanhada das firulas da ficção. Uma adolescente na janela de um apartamento surge com uma expressão que indica o apuro ao qual está submetida, clama por socorro. De fora câmeras ligadas, repórteres a postos para registrar cada passo daquela trama medonha envolvendo personagens da vida real. Um seqüestrador cruel, dominado por um ciúme doentio faz refém sua ex-namorada e uma amiga. Um vilão exemplar de folhetim, vale até um entrevista por telefone com o algoz, suas palavras rederam um ibope melhor do que qualquer novela da Globo, pouco importa para quem a arma dele aponta naquela hora. Vamos tentar aproveitar ao máximo o depoimento daquele psicopata.

Os folhetins da vida real parecem ser mais atrativos. Os recentes índices do ibope apontam uma queda nos números das novelas e uma ascensão da audiência dos telejornais. Se fazer jornalismo é mexer com as emoções e não com a verdade? Se o que eles devem fazer é narrar aquela tragédia e não lutar para que ela não ocorra? Será que é assim? Qual será a próxima novela que acompanharemos nos telejornais? Quem será a vítima? Pode ser eu ou você que acompanhamos hoje espremidos de medo no sofá o desenrolar dessas tramas sórdidas, podemos ser eu e você as vítimas do próximo folhetim.

segunda-feira, setembro 15, 2008

Não me pergunte por que

Sempre adorei contar histórias, isso não significa que eu seja bom no ofício. Faço porque gosto, assim como tem gente que gosta de fazer tricô. Faz e pronto, não espera que venha alguém atestar suas habilidades.

Hoje me deparei com um caderninho que eu usava para rabiscar minhas histórias, alguns pensavam ser um diário, mas bastava abrir a primeira página para constatar que aquilo era muito mais do que contar o que acontecia na minha vida, porque desde cedo eu sabia que a vida real não valia a pena, bom mesmo era a ficção.

No citado caderno havia apenas uma história, por acaso, incompleta e desconexa, talvez pelo seu título genérico demais. A história se chamava HISTÓRIA, assim mesmo e ainda ilustrada com o desenho de um avião em pleno vôo, não me pergunte por que?

A história começa com uma almofada que se rebelava, eu não expliquei porque, mas a almofada estava revoltada. A trama da almofada segue sem que eu mesmo que escrevi tenha entendido coisa alguma. Lá pras tantas, a almofada se suicida destroçando-se toda. A dona da almofada chora tanto que enche uma jarra. Já vi na ficção personagens chorarem rios de lágrimas, mas jarras nunca. Realismo fantástico na veia!

O resto da história nem interessa a vocês, nem a mim, porque a trama caminha por um enredo frágil e inverossímel até pra um surrealista drogado. O fato é que ainda hoje não vivo sem inventar história e foi muito bom encontrar aquele menino solitário que inventava seu mundo numa folha de papel e vivia nele com medo do mundo do portão pra fora. Porque no mundo dele uma almofada não ficava parada e lesa num sofá a mercê quem chegue e a esmague, lá até uma almofada tem direito a se rebelar. Não me pergunte por que.

domingo, agosto 03, 2008

Cidinha e os 50 anos da Bossa Nova


Não há no mundo profissão mais degradante do que cantor de praça de alimentação de Shopping. O leitor pode dizer que é um exagero da minha parte, citará até o higienizador de fossas para rebater minha afirmação, mas mesmo assim eu continuo a dizer que não há nada mais ultrajante que cantar em uma praça de alimentação. Por que até um limpador de fossas tem o momento onde seu trabalho é reconhecido pelo seu superior e além do mais, se um dia ele não aparecer para limpar as fossas, todos nós sentiremos a sua falta e perguntaremos indignados “Por onde anda o limpador de fossas? Vou fazer esse vagabundo pagar o concerto desse refluxo no ralo do banheiro”. E o cantor de praça de alimentação? Ali na companhia apenas de seu violão velho de guerra, no meio do vucu-vucu dos famintos consumidores da McDonald´s esperando o olhar de alguém no meio da multidão atenta somente para sua bandeja de fast-food.

Pois é, eu estava lá, na praça de alimentação quando a cantora Cidinha de Fátima começou seu show em homenagem aos 50 anos da Bossa Nova (O “de Fátima” veio depois de aos 36 anos ela ter virado devota de Nossa Senhora de Fátima). Cidinha cantava com tanta emoção as composições de Tom Jobim, João Donato, Vinicius de Moraes... mas ninguém olhava pra ela , ninguém bateu palmas para a belíssima seleção de repertório dessa cantora tão passional. Ela percebeu que eu assistia atento ao seu show depois que eu, solitário, aplaudi uma versão de Estrada do Sol, que ela quase sussurrou acompanhada do violão de seu marido, um sereno instrumentista grisalho. Aos poucos a interpretação visceral de Cidinha ia atraindo a atenção de algumas mesas de gaiatos, que em determinado momento, pensaram estar num barzinho e pediram escrito em um guardanapo do Bob´s que ela cantasse Djavan. Ela ignorou a ignorância musical dos grupo de chopeiros e continuou sua viagem pelos 50 anos da Bossa, sem se deixar interromper por gritos de crianças, conversas ao celular e a pivetada da 8ª série em uma mesa bem próximo. O palquinho era dela!

Cidinha vibrou com Você vai ver, improvisou em Wave, cantou gritada o clássico Chega de Saudade e outras mais que eu não vou me lembrar, pois tinha que dividir a atenção que dava a Cidinha com meu prato de Chop Suey e minha Coca-Cola de meio litro. Eu não agüentaria estar no lugar dessa devota de Fátima, como é cantar, soltar sua voz, desejar tocar as pessoas com seu canto e dá de cara com uma pessoa metendo a cara num hambúrguer. Que degradante! Centenas de pessoas preferiam um hambúrguer a ver Cidinha de Fátima dar uma aula de Bossa Nova. Essas pessoas não verão diferença se no lugar de Cidinha tivessem colocado Tiririca. Naquele dia, Cidinha e seu marido teriam acabado o show, pego o cachê e rumado para casa pensando em quitar a taxa de condomínio atrasada.

sábado, julho 12, 2008

Armarinhos Violados
Não sou muito dado a perder chaves, mas há alguns dias dei pela falta da chave de uma despensazinha onde eu guardo pequenos suvenires, nada comprometedor, somente algumas coisas que considero preciosas como um pote de figos em calda que eu ganhei de presente de uma professora quando ela foi a Portugal. Pois é, perdi a chave. Desesperado, ativei meus contatos afim de encontrar um competente chaveiro que pudesse resolver meu problema, e encontrei.

62 anos de idade, 45 de profissão, tendo no currículo feitos como o de abrir o cofre da rica dama olindense Maria Digna de Queiroz Monteiro, quando ela faleceu no ano de 78. Um verdadeiro mestre da Chavearia. Chegando a frente de minha despensazinha, ele desarmou o conteúdo de duas maletas e tirou delas engrenagens que poderiam muito bem ter aberto o armarinho onde D. João guardava suas coxinhas de frango, na época da família real no Brasil. Eram tão antigas como eficientes. Em poucos minutos, guiadas pela destreza das mãos do velho chaveiro, burlaram minha segurança e acessaram o meu baú de preciosidades. Estava tudo lá, meu vinil de Álvaro Carrilho, com 12 boleros inesquecíveis, meu pula-pula do Gugu, um garrafa de gin intocada, minha coleção de postais das cidades do México, meus bonecos Comandos em Ação em estado de perfeita conservação...

Impressionado com a habilidade do chaveiro em desvendar os relevos daquele buraco que guardava minha alma (ou minh´alma), comecei a me preocupar. “Deus do céu! E se ele usasse esse manejo para invadir minha casa e minha despensa” pensava eu, enquanto o via forjar uma nova chave para o meu armarinho. Pensei também que não era um bom negócio ser um desafeto dele. Imagine se ele usa essa mesma habilidade em favor do mal e da desordem, invadindo casas e armarinhos de pessoas que como eu guardam com carinho o seu pula-pula do Gugu. E se ele, vendo que a profissão de chaveiro não dá lucro, resolve se associar a um bando de meliantes e decide invadir as casas do bairro, espalhando o medo entre os pacatos olindenses. Não! Eu não quero mais que ele tome conta da segurança do meu armarinho. Quando criei coragem para interromper o seu serviço, ele ergue-se e ergue também as novas chaves em duas cópias bem na frente de seus óculos. Eu tratei logo de tomá-las da mão dele para não dar tempo de ele gravar na memória o segredo da chave. Perguntei quanto havia sido o serviço, ele disse e eu nem regateie e terminei deixando ele com o troco, receoso de que achasse que não valorizei seu trabalho e me colocasse em sua lista negra.

domingo, junho 01, 2008

Aguinaldo não me aceita

Esta semana, chegou o fim da novela Duas Caras, mais uma para o currículo Aguinaldo Silva. Dessa vez, foi diferente, Aguinaldão usou uma ferramenta do provedor Globo.com para promover seu portal de blogs de famosos, para dar vazão a sua megalomania sem limites. Ele quis ser adorado, na sua posição de Deus para seus personagens, um verdadeiro Senhor do Destino de suas criações. Fez sua novela, ecoar e de tanto enaltecê-la e plantar polêmicas, fez o Brasil pensar que a novela era boa, e era, mas é fato que ultimamente as novelas têm sofrido uma espécie de fuga do público, principalmente os jovens, que preferem a internet, lendo blogs como este, que nem chega perto do nosso Deus das oito.
Pois é, quem sou eu diante de um jornalista (ele adora essa alcunha) que saiu da esquecida cidade Carpina e chegou ao horário nobre da maior emissora do país. Ele, assim como eu, quer ser crítico de televisão, e já disse que agora esse será o assunto do seu blog. Pediu que seus leitores enviassem críticas SÉRIAS e COM PROPRIEDADE e eu, como leitor assíduo, mandei minhas palavras rabiscadas, mandei uma, mandei duas, mandei três, acabei de mandar agora e nada. Pensei que era defeito do meu computador, mas um conhecido me explicou: Aguinaldo, antes de publicar os comentários no seu blog, lê e SELECIONA os melhores, atenção, não é CENSURA é SELEÇÃO. Conscidentemente todos os meus comentários questionam seus posicionamentos e escolhas estéticas televisivas, ai eu entendi por que Aguinaldo não me aceita
Entendi mais ainda quando ele mostrou, num post recente, o exemplo do que é um crítica SÉRIA e COM PROPRIEDADE, e eu entendi Aguinaldão, crítica séria é aquela que alimenta seu ego como o próprio exemplo que você publicou, vejam só


Aguinaldo, parabéns pelo belíssimo último capítulo. Nunca escrevi antes no seu blog, mas HOJE com o fim da novela, me senti na obrigação de deixar aqui registrada a minha admiração pelo seu trabalho.
Houve sim algumas decepções, mas nenhuma, repito NENHUMA, provém do seu texto delicioso, da direção primorosa do Wolf Maya, sequer do elenco, afinadíssimo. Não, todos os deslizes são de responsabilidade exclusiva da edição.


Pois é conterrâneo, da próxima vez vou escrever só elogios a sua pessoa, quem sabe assim eu apareço no Blogão do Aguinaldão

sexta-feira, março 28, 2008

Coração no Chaveiro


Ele vinha sendo sacudido na fila para entrar no ônibus, preso unicamente por uma correntinha frágil. Na catraca, fora amassado, mas pareceu não se abater por ser de um material fofo. Esquecido por sua dona, uma garota cheia de livros na mão, pendurado num dos zíperes da bolsa da tal garota, estava lá vivo, vermelho, grande: um coração.

O leitor poderia dizer que essa é uma cena banal. Quantas pessoas andam com corações estampados em tantos lugares, em camisetas, tatuagens, canetas, estampas, adesivos... Meu Deus! Por que todo mundo tem que andar com o coração a mostra? O que isso quer dizer? Me perguntava (sic) enquanto estava no ônibus, por falta de coisa melhor pra fazer. Seria um símbolo de amor à humanidade, de amor ao próximo, ao namorado ou a si mesmo? Poderia ser uma atitude desesperada de quem vê esse sentimento ruir nos nossos tempos e sai desenhando corações em tudo, pra talvez sentir ele mais vivo dentro da gente, sentir que temos coração, dizer a todo mundo que temos coração, colocando ele pendurado num chaveiro.

Taí meu coração pra todo mundo vê. Taí meu amor por você tatuado no meu braço, taí ele piscando na minha canetinha, Taí ele bordado numa toalha. taí pra todo mundo lembrar que ele está ai, mesmo que não sinta nada, não sirva pra nada, não ajude a gente a amar as pessoas, ele está aí no aperto do ônibus, no aperto das almas, na dor de viver num mundo cheio de gente e ser só.


segunda-feira, dezembro 10, 2007

O jogador de Basquete que virou pintor de porta de supermercado

Mendes Santiago. Esse nome pode não lhe parecer familiar, mas se você já olhou, mesmo que de esguelha, aquelas telas que são vendidas nas portas dos supermercados, conhece algumas obras desse pintor-microempresário.

A dúvida pairou sob essa cabeça curiosa: Como deve ser um pintor de porta de supermercado. Enquanto uns recebem todo o glória artística por encher uma sala de uma galeria de arte com algumas toneladas de cocô de bode; Mendes Santiago põe todos os dias suas telas em cavaletes com etiquetas de preços.

Decidi entrevistá-lo sob pretexto de usar seu depoimento num futuro livro que compilará as histórias de pessoas brilhantes que nunca saíram num caderno cultural. Mendes se mostrou entusiasmado, divagou contando-me uma longa história sobre como ele ficou encantado com uma réplica de um retrato da rainha degolada, Maria Antonieta. Contou da infância na casa da avó e lamentou que eu não tivesse vindo entrevistá-lo três dias antes, pois tinha vendido um quadro em que pintou a casa de sua avó. Fiquei impressionado: como ele consegue vender lembranças só suas a estranhos.

Nos cavaletes vi as mais diversas influências, nem pedi que ele falasse sobre elas, depois que ele me disse que não conhece Brunelleschi. Uma casa na beira de um lago com pinceladas impressionistas, bahianas à moda de Picasso, um vaso com frutas no estilo Rococó e por ai vai. Mendes também relatou que sustenta sua mulher e dois filhos com o lucro dos quadros, disse que partiu para as artes depois que largou o basquete por ter sido pego pelo exame anti-doping. Perguntei a ele o que era arte e entre um gole e outro de Fanta ele me respondeu que arte pra o homem é como para a parede que é lisa e sem vida até que recebe um quadro e passa a fazer sentido. Quando ele viu que eu anotei isso entusiasmado, confessou em seguida que esse pensamento não era seu, mas de um escritor uruguaio que ele não lhe lembra o nome.

A conversa foi rica. Conversamos desde a campanha desse ano do Los Angeles Lakers até a política de editais do MinC. Na saída, ele insistiu que eu comprasse um de seus quadros, falei de minha atual situação financeira e ele disse que facilitava em 5 vezes sem juros e aceitava master card. Fiquei com um quadro sem título, que lembrava de longe a pintura de Wilfredo Lam, em casa eu intitulei de “O vendedor de lembranças”.

quinta-feira, novembro 01, 2007

O Brasil lê o blog de Carolina Dieckmann


Há 365 dias, Cássio disse: “faça-se a luz” e a luz se fez, nascia o blog mais inconstitucional de Olinda e circunvizinhanças. Mais aconchegante que boléia de caminhão e mais visto do que o Programa Amaury Júnior. A variedade dos assuntos tratados nem é tanta, uma olhada minuciosa veria que eu falo sempre a mesma coisa, usando sempre a mesma técnica de deixar de lado reverências, com um pouco de iconoclastismo e falar de coisas miúdas (uma música, uma escova de dente, um álbum de debutantes...).Eu confesso que tentei enganar a todos nesses últimos 12 meses, mas foi com a melhor das intenções.

Eu não tenho nada interessante a dizer, mas pelo menos eu confesso isso a vocês, diferente de outros blogeiros acidentais. Segundo o portal da Rede Globo, o blog mais visitado do seu provedor é o blog de Carolina Dieckmann. Na página a atriz trata de assuntos da sua vida, eu diria que também faço isso; ilustra seu blog com fotos estilizadas suas, fala de seu filho e responde a possíveis ataques da imprensa de celebridades. Assunto mais que suficiente para encher um blog de conteúdo.

O meu blog não tem frases importantes; o dela tem pensamentos como “violência gera violência e eu sou da paz”. Ela se arrisca até em poemas como “quanta chuva cai no rio de janeiro.../ quanta gente com a casinha alagada,/passando frio, perdendo as coisas!/ quando chove muito, eu sempre penso nisso.” Envereda também pelo comentário esportivo em trechos como “que jogaço no maraca, hein? o primeiro tempo nem foi tanto, mas o segundo foi só emoção!”. Depois de ter assitido Tropa de Elite filosofou, perguntando-se “e o tema, né? o que fazer diante de tanta coisa errada? qual é o caminho?? será que dá???”. A campeã Carolina só confirma o que já disse meu guru-mor Millôr Fernandes “Hoje ninguém precisa ser nada para ser alguma coisa”, então eu estou no caminho certo.

quinta-feira, outubro 18, 2007


O Barão, o Desembargador e a Devassa



Ser feliz não é ocioso

Passar dias festivais,

Nem ter cofre precioso

Pejado de cabedais;

Não, isto não é ventura;

Ao mesmo Creso tortura

A agonia do sofrer;

Vive o rico na opulência,

Mas desgostoso a existência

Não cessa de maldizer.

Esses são os primeiros versos do poema Felicidade do filhinho de papai, advogado, político, aristocrata baiano e de vez em quando, poeta Frankilin Dória, o Barão de Loreto. Eleito por unanimidade para a Academia Brasileira de Letras, foi o fundador da cadeira 25 da ABL. Escolhido para o cargo devido a versos como esses que meus poucos e distintos leitores acabaram de ver. Vocês puderam ver também que qualquer pessoa que sobesse arrumar palavras refinadas no papel já podia concorrer a uma cadeira na ABL.

O Barão de Loreto participou de um dos casos mais marcantes da justiça brasileira: O famigerado caso do Desembargador Pontes Visgueiro.

O velho Desembargador tinha pra lá de 60 anos, aposentado e viúvo contratou uma empregada nota 10. Pra vocês terem uma idéia o apelido dela era Mariquinhas Devassa (Tá lá nos autos do processo) O velho sem agüentar o rebolado da morena pura espécie maranhense, engatou uma ardente romance com Mariquinhas. Só que Pontes Visgueiro queria ela só pra ele. Ai é sacanagem! Toda aquela opulência de morena ser posse de apenas um homem. O velho não admitiu a traição, ou melhor, as traições e esquartejou a moça, depois enterrando o corpo no quintal de casa, no dia 14 de agosto de 1873 (Se o leitor aprecia detalhes sórdidos, os seios dela ele dilacerou com os dentes, seria isso um fetiche?)

A notícia do crime se espalhou pelo Maranhão e toda a população pedia pena de morte para Pontes Visgueiro. O negócio tava feio pro velho desembargador, ai que entra o Barão de Loreto. O nobre de Itaparica aceitou defender Visgueiro e abrandou a pena de morte inventando que o velho não estava em seu juízo perfeito. Pressionado, mas pressionado mesmo, pela população que ficava fazendo piquete na porta do fórum, o juiz decretou “pena de galés perpétua” em 13 de maio de 1874 e quando o embolador erudito Barão de Loreto se preparava para burlar a lei e soltar o cliente, Pontes Visgueiro não agüentou e faleceu um ano depois de ser preso.

A filha de Mariquinhas Devassa fez história no Maranhão, enfeitiçou todos os homens e era conhecida como Glorinha Derruba-Valente. O Barão de Loreto, até o último dia da sua vida era parado na rua e nos saraus para comentar o caso Pontes Visgueiro.