segunda-feira, outubro 27, 2008

O que fizeram com as tragédias?

Já foi-se o tempo em que as tragédias tomavam de nós um simples muxoxo de espanto ao folhear as páginas dos jornais que narravam degolamentos, envenenamentos de famílias inteiras, assassinatos cruéis de enteados infantes. Depois de ler aquelas atrocidades, que sempre aconteciam longe de nosso lar, seguíamos para as nossas obrigações diárias e no fim do dia sentávamos ao sofá a espera de nos entretermos com as histórias das telenovelas. Sim, por que antes lugar de drama era na novela, não no Jornal Nacional.

Hoje a notícia pura e simples não basta tem que vir acompanhada das firulas da ficção. Uma adolescente na janela de um apartamento surge com uma expressão que indica o apuro ao qual está submetida, clama por socorro. De fora câmeras ligadas, repórteres a postos para registrar cada passo daquela trama medonha envolvendo personagens da vida real. Um seqüestrador cruel, dominado por um ciúme doentio faz refém sua ex-namorada e uma amiga. Um vilão exemplar de folhetim, vale até um entrevista por telefone com o algoz, suas palavras rederam um ibope melhor do que qualquer novela da Globo, pouco importa para quem a arma dele aponta naquela hora. Vamos tentar aproveitar ao máximo o depoimento daquele psicopata.

Os folhetins da vida real parecem ser mais atrativos. Os recentes índices do ibope apontam uma queda nos números das novelas e uma ascensão da audiência dos telejornais. Se fazer jornalismo é mexer com as emoções e não com a verdade? Se o que eles devem fazer é narrar aquela tragédia e não lutar para que ela não ocorra? Será que é assim? Qual será a próxima novela que acompanharemos nos telejornais? Quem será a vítima? Pode ser eu ou você que acompanhamos hoje espremidos de medo no sofá o desenrolar dessas tramas sórdidas, podemos ser eu e você as vítimas do próximo folhetim.

Nenhum comentário: