sexta-feira, junho 18, 2010

P. N.

P.N.

Quando eu estou sem absolutamente nada para fazer, me ocorre três coisas perigosíssimas: 1) comer brigadeiro na panela; 2) Ter planos malucos para fazer coisas mirabolantes, que eu nunca vou ter tempo de fazer na vida, como escrever um Épico Olindense ou compôr a trilha de um musical; 3) Pensar besteiras paranóicas. O costume me ensinou a lidar com essas coisas de maneira sensata, isso quando cada um desses sintomas do ócio aparece ao seu tempo, não todos juntos de uma tacada só num dia de chuva torrencial, fazendo que eu parecesse um guloso ansioso obsessivo paranóico compulsivo workaholic, coisa que eu não sou de maneira alguma.

Foi um golpe baixo do ócio. Comecei bem tranquilo peneirando o chocolate em pó para fazer um brigadeiro que se tornaria inofensivo, uma vez que eu ia dividir com a vizinha, que possivelmente me elogiaria e me perguntaria o segredo dele não pegar no fundo da panela e por ai vai... Um filminho em DVD é bom pra acompanhar... deixe-me ver Chaplin não, um desses blockbusters, também não, ver pela 14ª vez E o vento levou, será? Terminei vendo um jogo da Copa. Na metade do 2º tempo, quando findou o brigadeiro, começou a fervilhar na minha cabeça o plano de aprender canto, na hora, já pensei mil coisas, como sempre. Já estava escolhendo o repertório do primeiro show, planejando shows de tributos, versões inusitadas de Nirvana e Calypso. Duetos! Sonhando com duetos, imaginando que eu seria a única pessoa no Recife que conheceria o chuco-chuco eletrônico da Colômbia e organizaria o Festival Internacional do Chuco-chuco Lationamericano na Praça do Arsenal com...

Uma passeada pelos meus perfis em redes sociais e uma ideia me toma a cabeça: Quem são meus detratores? Será que eu tenho detratores? Será que existem pessoas que tem mais tempo sem nada o que fazer do que eu e ficam lendo as entrelinhas do que eu digo pela rede e afiam críticas sobre a minha pessoa? E o pior é pensar quem seriam esses detratores que tendo tanta personalidades, saradas e gostosonas para ver na internet preferem ver a minha vida? Será que isso existe? Não seria obsessão da minha cabeça, uma obsessão megalomaníaca? Pensar que é obsessão é muito mais cômodo para ignorar o que existe. Eu vou parar por aqui, já me confessei demais. Será que eu me expus demais? Será que eu devo publicar essa postagem? Que bom que amanhã eu volto a rotina.



domingo, fevereiro 21, 2010

140

140
Antes de qualquer coisa, permitam um aparte para explicar minha ausência neste Blog. A culpa é de um furacão que atende pelo nome de Twitter. Ele tem reduzido minhas flexões e reflexões a 140 caracteres. Mas isso, de maneira alguma, quer dizer que eu esteja viciado nessa nova ferramenta, mesmo levando em consideração o meu "fogo" por coisas novas.
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Para provar, eu vou mostrar à minha meia-dúzia de leitores fiéis que eu consigo, em tempos de Twitter, desenvolver minhas idéias para além dos 140 toques. A saber:
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A corrupção está impregnada na alma do povo brasileiro, mas não quer dizer que isso não tenha solução. Tem horas que eu fico pensando qual seria...
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Me aterroriza a idéia de um dia ser obrigado a parar de tomar café por algum médico
inconsequente. Não que eu seja dependente, mas ele que não ouse proibir...
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Teatro de Revista virou coisa boa no Brasil e as sobreviventes talentosas desse vuco-vuco cultural são tratadas como deusas da interpretação...
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A faxineira perguntou porque eu guardo um relógio parado na parede do meu quarto, eu tentei pensar em alguma resposta filosófica, mas não me veio nada e ela disse: Oxe!...
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Abajur e cueca não são presentes que se dê a ninguém. Isso tem que constar em todos os manuais de etiqueta #odeio...
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Matemáticos afirmam que daqui a 2 anos e meios vai se esgotar o número de combinações das seleções musicais da Antena 1...
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Eu sou do tempo em que jornal de domingo se lia no domingo. Vejam que coisa esquisita!...
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Hoje só há dois tipos de cronistas que ganham dinheiro: os que apanharam na ditadura e os que dizem que apanharam na ditadura...

domingo, janeiro 10, 2010

Botando as coisas nos seus lugares


Botando as coisas nos seus lugares

Querer é o primeiro passo pra acontecer. Primeiro é tudo que vem pra começar. Começar é o que a gente tem que fazer pra coisas acontecerem. Fazer é deixar de ficar parado. Parado é como fica uma coisa quando morre. Morrer é deixar de fazer as coisas. Coisa é tudo que existe no mundo ou na nossa cabeça. Cabeça é onde a gente guarda tudo que é nosso. Guardar é dar valor. Valor é o que a coisa é pra gente ou pra um monte de pessoas juntas. Junto é como a gente sempre devia estar no mundo. Mundo é um monte de coisa junta e a gente no meio dele. Meio é qualquer lugar que não é a beira. Beira é o fim de qualquer coisa. Fim é quando a gente não pode mais fazer nada. Nada é o que fica quando tudo vai embora. Tudo é tudo mesmo.


Esse post é uma homenagem a um livro que marcou minha infância. Mania de Explicação de Adriana Falcão. E me veio à cabeça numa hora em que eu acho que o mundo tá precisando botar as coisas nos seus devidos lugares.

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Eu não tenho tempo

Eu não tenho tempo

Odeio dizer essa frase, acho um enorme equívoco, venha de quem venha e, sobretudo, se sair da minha boca. Toda vez que penso em dizer isso, me vem à cabeça o nome de várias pessoas que simplesmente brincam com o relógio, fazendo o dia valer por uma semana.

Estou aqui, mais uma vez, correndo no meio dos comes e bebes da virada, em contagem regressiva para postar o último rabisco do ano e desejar tudo aquilo que de mais clichê existir nesses cartões de empresas a todos aqueles que perderam seu tempo de vez em quando dando atenção a essas mal versadas linhas e que viram esse cronista inculto derramar o seu arsenal de banalidades. Coisas tão miúdas como por exemplo falar sobre a minha relação com a rotina e com tempo. Vê se pode?

Foi assim nesse ano: nem tive tempo de vê-lo passar. Foi o ano em que eu mais deixei coisas para fazer “amanhã” e enquanto tinha amanhã eu ia postergando. E é por isso que aqui fica minha promessa para 2010. Quero tudo pra hoje, meu sonho é agora. Esse é um ano bonito pra fazer grandes coisas, 10, 10. Daqui a 25 anos eu vou contar pra alguém que em 2010, depois de 1 ano e meio eu consegui escrever minha adaptação de “La Celestina” e que um grupo de teatro aceitou encenar o texto.

Quero poder contar muitas coisas boas de 2010. Sempre com o objetivo de segurar o máximo de tempo possível o sorriso no meu rosto. Quero aproveitar o tempo que eu faço a barba, o tempo que eu perco no trânsito, na sala de espera do dentista, na fila do supermercado, no restaurante na hora do almoço.

Eu sempre adorei cadernos novos e um ano novo é como um caderno novo. Branquinho, cheirando a papel novo e a gente fica planejando mil coisas para encher aquelas folhas. Prometendo não repetir os erros dos cadernos velhos.

E eu prometo ter tempo pra fazer bonito nesse caderno novo e não precisar mais reclamar da falta de tempo. Tempo esse que já me falta agora para pensar em uma frase de efeito pra fechar o post com chave de ouro. Para todos os efeito, vai um “Feliz 2010!”

segunda-feira, novembro 30, 2009

Caríssima Louana,

Caríssima Louana,

Imagino que deve estar estarrecida ao abrir esta carta, por dois motivos suponho eu: um por ter recebido uma carta nesses tempos de orkut, e-mail, msn, twitter... e outro por ter sido eu o autor da carta. Como se não bastasse seu espanto, vou somar a ele a revelação de que irei publicar, mesmo sem a sua permissão, essa carta em meu blog. Isso mesmo, eu tenho um blog. Você sempre me dizia que o que eu escrevia parecia bonito, pois é...

Certamente várias pessoas vão ler essa carta antes de você, pois um blog é mais rápido que os correios, mesmo você morando na mesma cidade que eu, mas me deu na telha hoje de escrever uma carta, depois do que li de Fernanda Young no jornal. Ela disse que uma carta é o jeito de falar mais sincero que existe. Pensei em quem eu escreveria uma carta sincera e me lembrei de você que fez parte da minha vida há tantos anos e simplesmente sumiu do meu caminho e eu do seu.

Eu mudei muito de quatro anos pra cá, aliás, eu mudei muito de 22 anos pra cá, eu vivo mudando, não sei se isso é bom. Talvez hoje a gente nem goste das mesmas coisas mais. Por exemplo, não suporto mais pipoca doce e finalmente concordei que Pink Floyd é bom. Eu continuo tentando fazer de tudo com mil projetos. Continuo alimentando meu caderninho sujo de idéias ordinárias e você continua sendo a única pessoa desse planeta que leu o caderninho. Às vezes eu me pego lembrando daquele padeiro que a gente idolatrava por fazer o melhor pão ciabatta de calabresa do mundo ou de Olinda.

Eu vivo querendo me encontrar com as coisas do passado, eu não quero vivê-lo novamente, não ia agüentar a minha ingenuidade dos tempos em que eu te conheci. Só queria olhar de longe, sentir o cheiro do ciabatta que saia sempre às 4 da tarde na padaria, dia sim, dia não. Queria encontrar você de novo, não 4 anos depois, mas 4 anos atrás. Tenho medo do que você pode ser hoje, sem querer lhe ofender, você me conhece. Aliás, você ão tem orkut né? É até bom que eu fico imaginando o que aconteceu da sua vida. Vou encerrar por aqui, a carta está pequena, mas o post está longo.



Felicidades,

do amigo de sempre.




quarta-feira, outubro 21, 2009

Papoulas

Papoulas

Final do ano de 1974, uma simplória professora de pintura cruza os corredores de um hospital levando consigo um quadro. Enquanto caminha ela sorri tentando amenizar a estranheza da cena. Em suas mãos a tela de uma iniciante, nada muito sofisticado, um vaso de papoulas amarelas e vermelhas no canto de uma parede qualquer. A professora
abre a porta de um dos leitos e acorda a paciente pálida em sua cama, avisando:

- Você esqueceu mais uma vez de assinar seu quadro.

A professora havia trazido tinta e um pincel fino e usou sua autoridade para fazer a aluna assinar com mãos trêmulas e fracas a tela de sua autoria.

Essas papoulas me acordam todos os dias. A assinatura torta no canto da tela é da minha mãe. Ela pintou óleo sobre tela por um bom tempo da sua juventude, mas a alergia aos solventes usados nessa técnica a fizeram migrar para o artesanato, ofício que exerce até hoje com reconhecida maestria.

Houve um tempo que em minha casa não havia nenhum quadro que não fosse da minha mãe e eram muitos, fora os que enfeitavam as casa dos parentes. Minha ocupação era tentar desvendar o que se passava na cabeça dela para ter pintado aquilo, quantas cores, quanta delicadeza, tanta minúcia no traço. Quem era a mulher a pintou esse quadro? Que sonhos ela tinha? O que fez ela guardar seus sonhos numa caixinha e preferir fazer a lista do supermercado, escolher o novo piso da suíte ou se ocupar em resolver a infiltração na área de serviço. Onde está a mulher que esbanjou cores naquelas papoulas que eu vejo todos os dias? Aquelas papoulas testemunhas de uma juventude revelada em cores tão bonitas. Minha mãe é eterna.

terça-feira, outubro 06, 2009

Boa Tarde, Boa Vista

Boa Tarde, Boa Vista

Vez por outra eu me permito o prazer de almoçar num tradicional restaurante do Bairro da Boa Vista, no centro do Recife. O lugar é interessantíssimo e merecia há algum tempo uma homenagem nesse meu caderno de rabiscos. Sem nenhum requinte gastronômico, ele cruza os anos como uma trincheira de resistência do romantismo que cercava esse bairro nos tempos de outrora. Reduto de tantos poetas, artistas e pessoas que aprenderam a gostar do Recife morando ali, passando tranquilamente as tardes entre os oitizeiros e os pés-de-azeitona. Hoje a Boa Vista foi devorada pelos prédios comerciais e escritórios com o ritmo frenético que foi tomando o centro do recife na segunda metade do século XX e expulsou muitos moradores, barateou as moradias, depredou os belíssimos prédios que eram o fino da arquitetura dos anos 60 e ali só restaram seres notívagos de vida marginal e idosos que se trancam silenciosos em seus apartamentos amplos onde a água vem com cheiro de ferrugem. A ferrugem do tempo e da encanação de ferro antiga.

É nesse restaurante que a terceira-idade da Boa Vista se encontra para contar suas histórias e fazerem assim como eu: de um simples almoço uma crônica saudosista. Eu comi perfeitamente bem, apesar de saber que no mapa gastronômico do bairro, esse restaurante perderia para outras perólas tradicionais como a Padaria Santa Cruz, a Sorveteria Fri-Sabor e o Mustang. Mas nenhum desses parou no tempo como o restaurante dos idosos da Boa Vista, que nos faz esquecer o barulho dos carros lá fora ao som de uma das melhores discotecas dos anos 70 do Recife. Eu almoço entre as risadas dos velhos e Paulo Diniz, Antônio Marcos, Tim Maia, Earth, Wind and Fire, Santa Esmeralda e por ai vai.

Nada demais no que é servido lá a não ser o o chocolate quente com toque de canela depois do almoço. Bom mesmo é ver o que sobrou de um bairro que já foi símbolo de modernidade no Recife e hoje resiste com a ajuda das bengalas ao tempo que quer transformar a Boa Vista num lugar de passagem entre ruínas e lojas de roupas.