quarta-feira, outubro 21, 2009

Papoulas

Papoulas

Final do ano de 1974, uma simplória professora de pintura cruza os corredores de um hospital levando consigo um quadro. Enquanto caminha ela sorri tentando amenizar a estranheza da cena. Em suas mãos a tela de uma iniciante, nada muito sofisticado, um vaso de papoulas amarelas e vermelhas no canto de uma parede qualquer. A professora
abre a porta de um dos leitos e acorda a paciente pálida em sua cama, avisando:

- Você esqueceu mais uma vez de assinar seu quadro.

A professora havia trazido tinta e um pincel fino e usou sua autoridade para fazer a aluna assinar com mãos trêmulas e fracas a tela de sua autoria.

Essas papoulas me acordam todos os dias. A assinatura torta no canto da tela é da minha mãe. Ela pintou óleo sobre tela por um bom tempo da sua juventude, mas a alergia aos solventes usados nessa técnica a fizeram migrar para o artesanato, ofício que exerce até hoje com reconhecida maestria.

Houve um tempo que em minha casa não havia nenhum quadro que não fosse da minha mãe e eram muitos, fora os que enfeitavam as casa dos parentes. Minha ocupação era tentar desvendar o que se passava na cabeça dela para ter pintado aquilo, quantas cores, quanta delicadeza, tanta minúcia no traço. Quem era a mulher a pintou esse quadro? Que sonhos ela tinha? O que fez ela guardar seus sonhos numa caixinha e preferir fazer a lista do supermercado, escolher o novo piso da suíte ou se ocupar em resolver a infiltração na área de serviço. Onde está a mulher que esbanjou cores naquelas papoulas que eu vejo todos os dias? Aquelas papoulas testemunhas de uma juventude revelada em cores tão bonitas. Minha mãe é eterna.

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