Papoulas
Final do ano de 1974, uma simplória professora de pintura cruza os corredores de um hospital levando consigo um quadro. Enquanto caminha ela sorri tentando amenizar a estranheza da cena. Em suas mãos a tela de uma iniciante, nada muito sofisticado, um vaso de papoulas amarelas e vermelhas no canto de uma parede qualquer. A professora
abre a porta de um dos leitos e acorda a paciente pálida em sua cama, avisando:
- Você esqueceu mais uma vez de assinar seu quadro.
A professora havia trazido tinta e um pincel fino e usou sua autoridade para fazer a aluna assinar com mãos trêmulas e fracas a tela de sua autoria.
Essas papoulas me acordam todos os dias. A assinatura torta no canto da tela é da minha mãe. Ela pintou óleo sobre tela por um bom tempo da sua juventude, mas a alergia aos solventes usados nessa técnica a fizeram migrar para o artesanato, ofício que exerce até hoje com reconhecida maestria.
Houve um tempo que em minha casa não havia nenhum quadro que não fosse da minha mãe e eram muitos, fora os que enfeitavam as casa dos parentes. Minha ocupação era tentar desvendar o que se passava na cabeça dela para ter pintado aquilo, quantas cores, quanta delicadeza, tanta minúcia no traço. Quem era a mulher a pintou esse quadro? Que sonhos ela tinha? O que fez ela guardar seus sonhos numa caixinha e preferir fazer a lista do supermercado, escolher o novo piso da suíte ou se ocupar em resolver a infiltração na área de serviço. Onde está a mulher que esbanjou cores naquelas papoulas que eu vejo todos os dias? Aquelas papoulas testemunhas de uma juventude revelada em cores tão bonitas. Minha mãe é eterna.
Final do ano de 1974, uma simplória professora de pintura cruza os corredores de um hospital levando consigo um quadro. Enquanto caminha ela sorri tentando amenizar a estranheza da cena. Em suas mãos a tela de uma iniciante, nada muito sofisticado, um vaso de papoulas amarelas e vermelhas no canto de uma parede qualquer. A professora
abre a porta de um dos leitos e acorda a paciente pálida em sua cama, avisando:
- Você esqueceu mais uma vez de assinar seu quadro.
A professora havia trazido tinta e um pincel fino e usou sua autoridade para fazer a aluna assinar com mãos trêmulas e fracas a tela de sua autoria.
Essas papoulas me acordam todos os dias. A assinatura torta no canto da tela é da minha mãe. Ela pintou óleo sobre tela por um bom tempo da sua juventude, mas a alergia aos solventes usados nessa técnica a fizeram migrar para o artesanato, ofício que exerce até hoje com reconhecida maestria.
Houve um tempo que em minha casa não havia nenhum quadro que não fosse da minha mãe e eram muitos, fora os que enfeitavam as casa dos parentes. Minha ocupação era tentar desvendar o que se passava na cabeça dela para ter pintado aquilo, quantas cores, quanta delicadeza, tanta minúcia no traço. Quem era a mulher a pintou esse quadro? Que sonhos ela tinha? O que fez ela guardar seus sonhos numa caixinha e preferir fazer a lista do supermercado, escolher o novo piso da suíte ou se ocupar em resolver a infiltração na área de serviço. Onde está a mulher que esbanjou cores naquelas papoulas que eu vejo todos os dias? Aquelas papoulas testemunhas de uma juventude revelada em cores tão bonitas. Minha mãe é eterna.

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