terça-feira, outubro 06, 2009

Boa Tarde, Boa Vista

Boa Tarde, Boa Vista

Vez por outra eu me permito o prazer de almoçar num tradicional restaurante do Bairro da Boa Vista, no centro do Recife. O lugar é interessantíssimo e merecia há algum tempo uma homenagem nesse meu caderno de rabiscos. Sem nenhum requinte gastronômico, ele cruza os anos como uma trincheira de resistência do romantismo que cercava esse bairro nos tempos de outrora. Reduto de tantos poetas, artistas e pessoas que aprenderam a gostar do Recife morando ali, passando tranquilamente as tardes entre os oitizeiros e os pés-de-azeitona. Hoje a Boa Vista foi devorada pelos prédios comerciais e escritórios com o ritmo frenético que foi tomando o centro do recife na segunda metade do século XX e expulsou muitos moradores, barateou as moradias, depredou os belíssimos prédios que eram o fino da arquitetura dos anos 60 e ali só restaram seres notívagos de vida marginal e idosos que se trancam silenciosos em seus apartamentos amplos onde a água vem com cheiro de ferrugem. A ferrugem do tempo e da encanação de ferro antiga.

É nesse restaurante que a terceira-idade da Boa Vista se encontra para contar suas histórias e fazerem assim como eu: de um simples almoço uma crônica saudosista. Eu comi perfeitamente bem, apesar de saber que no mapa gastronômico do bairro, esse restaurante perderia para outras perólas tradicionais como a Padaria Santa Cruz, a Sorveteria Fri-Sabor e o Mustang. Mas nenhum desses parou no tempo como o restaurante dos idosos da Boa Vista, que nos faz esquecer o barulho dos carros lá fora ao som de uma das melhores discotecas dos anos 70 do Recife. Eu almoço entre as risadas dos velhos e Paulo Diniz, Antônio Marcos, Tim Maia, Earth, Wind and Fire, Santa Esmeralda e por ai vai.

Nada demais no que é servido lá a não ser o o chocolate quente com toque de canela depois do almoço. Bom mesmo é ver o que sobrou de um bairro que já foi símbolo de modernidade no Recife e hoje resiste com a ajuda das bengalas ao tempo que quer transformar a Boa Vista num lugar de passagem entre ruínas e lojas de roupas.


Um comentário:

luizy silva disse...

muito bacana esse seu post
adorei!
tenho ótimas lembranças com essa trilha sonora que você citou..
sinestesia total!
ouço as boas risadas de pessoas boas que já se foram..
sinto o gosto daquela comida..
tenho saudades
e lembro de ótimos domingos em família, ao som de muita música e de altas danças..
ai ai..

"jovens tardes de domingo, tantas alegrias.. velhos tempos, velhos dias..."