Insônia
Há muitos anos não tinha o deleite de cruzar uma noite insone. A última delas, se a memória não me falha, me lembro de ter devorado um livro de piadas de Ary Toledo ou coisa do tipo. As noites de insônia costumam mudar muito a minha vida, pois é como se a vida me desse um freio e me jogasse num nada onde eu sou obrigado a pensar em tudo o que eu estou fazendo, fazendo, fazendo... A casa mergulha num silêncio fúnebre e a proximidade dos cômodos, somado a meu respeito pelo sono alheio, faz com que eu evite ligar a TV, procurando os Corujões da madrugada.
Ai eu paro. Repasso a agenda de amanhã na minha cabeça, faço planos para as próximas férias, dou minha opinião sobre as manobras políticas para fazer brotar a PEC do terceiro mandato de Lula, prometo ligar para aquela pessoa que há uns 3 anos foi muito importante na minha vida e eu não vejo mais, digo pra mim várias vezes que eu tenho muitos motivos pra dizer que sou feliz, penso em que cor pintar o quarto da próxima vez, prometo voltar a estudar pintura, ou aprender um instrumento...
Sinceramente queria ter mais noites de insônia na minha vida, como esta que estou tendo. Sem sono, no quarto, você não pode fazer nada, nada... você simplesmente planeja, sonha acordado, lembra das alegrias, lembra de quem você era. É como olhar a vida em slow-motion. Não sei se amanhã, quer dizer hoje, ou melhor, daqui a pouco, eu vou começar a fazer tudo diferente, posso até ter um dia de cão por esse sono acumulado que não tirei, mas foi bom ver cada hora da madrugada passar, ver a aurora que inspira os poetas entrar no meu quarto timidamente e vencer o impedimento da cortina...
Já são quase seis da manhã, o jornal já chegou, vou voltar pra cama e levantar como se tivesse dormido horas a fio para não perder a deixa da minha rotina, ligar a cafeteira, escovar os dentes, sentar na privada e ler as notícias do dia... Bom dia!

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