Mendes Santiago. Esse nome pode não lhe parecer familiar, mas se você já olhou, mesmo que de esguelha, aquelas telas que são vendidas nas portas dos supermercados, conhece algumas obras desse pintor-microempresário.
A dúvida pairou sob essa cabeça curiosa: Como deve ser um pintor de porta de supermercado. Enquanto uns recebem todo o glória artística por encher uma sala de uma galeria de arte com algumas toneladas de cocô de bode; Mendes Santiago põe todos os dias suas telas em cavaletes com etiquetas de preços.
Decidi entrevistá-lo sob pretexto de usar seu depoimento num futuro livro que compilará as histórias de pessoas brilhantes que nunca saíram num caderno cultural. Mendes se mostrou entusiasmado, divagou contando-me uma longa história sobre como ele ficou encantado com uma réplica de um retrato da rainha degolada, Maria Antonieta. Contou da infância na casa da avó e lamentou que eu não tivesse vindo entrevistá-lo três dias antes, pois tinha vendido um quadro em que pintou a casa de sua avó. Fiquei impressionado: como ele consegue vender lembranças só suas a estranhos.
Nos cavaletes vi as mais diversas influências, nem pedi que ele falasse sobre elas, depois que ele me disse que não conhece Brunelleschi. Uma casa na beira de um lago com pinceladas impressionistas, bahianas à moda de Picasso, um vaso com frutas no estilo Rococó e por ai vai. Mendes também relatou que sustenta sua mulher e dois filhos com o lucro dos quadros, disse que partiu para as artes depois que largou o basquete por ter sido pego pelo exame anti-doping. Perguntei a ele o que era arte e entre um gole e outro de Fanta ele me respondeu que arte pra o homem é como para a parede que é lisa e sem vida até que recebe um quadro e passa a fazer sentido. Quando ele viu que eu anotei isso entusiasmado, confessou em seguida que esse pensamento não era seu, mas de um escritor uruguaio que ele não lhe lembra o nome.
A conversa foi rica. Conversamos desde a campanha desse ano do Los Angeles Lakers até a política de editais do MinC. Na saída, ele insistiu que eu comprasse um de seus quadros, falei de minha atual situação financeira e ele disse que facilitava em 5 vezes sem juros e aceitava master card. Fiquei com um quadro sem título, que lembrava de longe a pintura de Wilfredo Lam, em casa eu intitulei de “O vendedor de lembranças”.
segunda-feira, dezembro 10, 2007
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