Conto datado
Logo que chegou do Arkansas, Odília teve que ir correndo cumprir a obrigação de contar a sua Tia Laurinha como fora maravilhosa a sua estada na América e como ela agradecia a sua generosa ajuda em custear parte do valor da passagem de volta ao Brasil, mesmo que tudo isso fosse mentira e que Odília estivesse absurdamente cansada para agüentar os qui-qui-quis de sua tia que avisou várias vezes ao pai da garota com sua voz de taquara rachada: “Vou ficar muito sentida se Odília não vier me ver logo que chegar dos Estados Unidos”.
Odília mentiu muito naquela tarde com sua tia, falou que a cidadezinha onde o diabo deu o último suspiro de cansaço era um agradável povoado com gente simples e acolhedora, uma paisagem bucólica e um clima confortável. Esqueceu de mencionar o fato de ter sido enviada pela agência de intercâmbio para uma fazenda onde não se falava em nada a não ser na produção de Leite da tradicional propriedade de Mr. Torks e na qualidade do seu produto que chegava em 9 das 10 mesas da cidade de Litlle Rock. Odília também deixou de falar que contou os dias para acabar o seu intercâmbio, não por saudades do Recife, mas por não suportar a mesma vista na janela todos os dias e por ter aprendido só meio porcento do idioma do país já que esse era o arsenal de palavras que os moradores da Fazenda dos Torks usavam. Odília encerrou a conversa com a tia entregando-lhe uma lembrança do Arkansas: a foto recuperada da avó de Mr. Torks na Fazenda da família tirando...Leite.
Odília saiu da casa de Tia Laurinha desesperada por uma boa e típica refeição pernambucana, depois um delicioso banho de água quente para matar as saudades de uma ducha térmica, que ela já tinha esquecido que existia. Decidiu ir passeando pelas ruas do subúrbio para respirar o ar revigorante da Cidade Maurícia. Quando finalmente chegou na rua onde morava viu na porta de casa uma ambulância, pensou mil coisas, correu e ouviu uma vizinha nova gritar “é ela!”. Como numa operação para prender criminosos, o grupo de jaleco se aproximou de Odília, trazendo máscaras cobrindo o nariz e a boca. Uma delas chegou perguntando com voz de menina “Você está se sentindo bem?”. Odília disse que sim e perguntou porque haveria de estar se sentindo mal. A mulher com voz de menina e jaleco, que parecia ser a médica da equipe, avisou que a garota teria que ser levada para o Hospital a fim de ser examinada para confirmar ou não a suspeita de contágio da Gripe Suína. “Gripe Suína? Mas isso chegou aqui?” A médica respondeu que não, mas esse procedimento era para que justamente essa peste não se espalhe pelo país. O pai de Odília chegou nesse momento e negou-se a colocar a máscara que o enfermeiro lhe ofereceu, nessa hora a rua inteira já estava empolvorosa com a movimentação, e o pai da garota disse: “Querem levar você internada só porque você veio dos Estados Unidos, filha”, a médica retrucou dizendo que o pai havia informado que a menina voltou dos EUA espirrando. “Mais eu espirro sempre quando estou nervosa, só estou me sentindo cansada, cheguei hoje de madrugada.” alertou a garota. De nada valeu. Levaram Odília para o Hospital e até agora a informação que temos é que ela continua internada, podendo ser visitada apenas pelos médicos que estão acompanhando seu caso. O pai de Odília fez até promessa de largar as duas doses de Wisky que tomava religiosamente aos sábados se a filha sair do Hospital e mesmo a garota avisando que estava se sentindo perfeitamente bem, os médicos mantém a clausura respondendo sempre que a paciente está “em observação e que o vírus pode se manisfestar a qualquer momento e é bom que ela fique longe do contato com outras pessoas”.

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