terça-feira, setembro 08, 2009

Mijaram em Bilac

O povo do Recife tem fama de ser...digamos “tropical” para não dizer anti-cívico ou pouco zeloso com a coisa pública. Ocorreu esse pensamento quando passava por uma praça próxima ao Parque 13 de maio, na boca da madrugada e vi um notívago, em visível estado alterado, fazendo suas necessidades ao pé do busto do poeta Olavo Bilac. Para ser bem claro, o indivíduo mijou num dos poetas mais célebres e talentosos da literatura brasileira.

Não vim aqui para partir em defesa de Bilac ou atirar pedra no transeunte com aquele papo de cidadania, depredação, vandalismo..., estou somente chamando atenção para essa cena hilária e significativa. No meio de uma praça, Bilac olhando as estrelas do céu do Recife e um bebum regando seu busto. Nem os mais anarquistas do modernismo imaginariam protesto tão irreverente.

Para Olavo Bilac, eu tiro meu chapéu. O Brasil ainda vai redescobrir o valor desse poeta, que nos tempos áureos já recebeu o codinome de Príncipe dos Poetas e depois do furacão dos Andrade (a saber: Mário, Oswald e Cia.), virou sapo caduco da nossa poesia, símbolo do arcaísmo careta.

Mais o poeira do modernismo baixou e no fim da festa, os leitores começaram a enxergar a beleza e o sentimento que pulsa nos versos quadrados e nas rimas preciosas desse ourives da literatura brasílica.
Um dos sonetos que eu mais gosto de Bilac é Ao coração que sofre, escrito no início dos anos de 1900. Essa predileção de agora está diretamente ligada a fase de melodramático pela qual estou passando.
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Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.
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Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.
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E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;
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E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.

Ruy Castro, no final dos anos 90, escreveu um livro muito divertido em homenagem a Bilac, na verdade uma biografia de ficção com o título Bilac vê estrelas. Vale a pena ver descrito fielmente o início do século XX onde tudo se passava na porta da Confeitaria Colombo. Outros tempos, caro leitor, imagine se Bilac, entornando seu chá da tarde, visse pelo seu monóculo alguém tirando água do joelho bem ao pé de seu busto. Viva a pós-pós-moderninade!

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