Não há no mundo profissão mais degradante do que cantor de praça de alimentação de Shopping. O leitor pode dizer que é um exagero da minha parte, citará até o higienizador de fossas para rebater minha afirmação, mas mesmo assim eu continuo a dizer que não há nada mais ultrajante que cantar em uma praça de alimentação. Por que até um limpador de fossas tem o momento onde seu trabalho é reconhecido pelo seu superior e além do mais, se um dia ele não aparecer para limpar as fossas, todos nós sentiremos a sua falta e perguntaremos indignados “Por onde anda o limpador de fossas? Vou fazer esse vagabundo pagar o concerto desse refluxo no ralo do banheiro”. E o cantor de praça de alimentação? Ali na companhia apenas de seu violão velho de guerra, no meio do vucu-vucu dos famintos consumidores da McDonald´s esperando o olhar de alguém no meio da multidão atenta somente para sua bandeja de fast-food.
Pois é, eu estava lá, na praça de alimentação quando a cantora Cidinha de Fátima começou seu show em homenagem aos 50 anos da Bossa Nova (O “de Fátima” veio depois de aos 36 anos ela ter virado devota de Nossa Senhora de Fátima). Cidinha cantava com tanta emoção as composições de Tom Jobim, João Donato, Vinicius de Moraes... mas ninguém olhava pra ela , ninguém bateu palmas para a belíssima seleção de repertório dessa cantora tão passional. Ela percebeu que eu assistia atento ao seu show depois que eu, solitário, aplaudi uma versão de Estrada do Sol, que ela quase sussurrou acompanhada do violão de seu marido, um sereno instrumentista grisalho. Aos poucos a interpretação visceral de Cidinha ia atraindo a atenção de algumas mesas de gaiatos, que em determinado momento, pensaram estar num barzinho e pediram escrito em um guardanapo do Bob´s que ela cantasse Djavan. Ela ignorou a ignorância musical dos grupo de chopeiros e continuou sua viagem pelos 50 anos da Bossa, sem se deixar interromper por gritos de crianças, conversas ao celular e a pivetada da 8ª série em uma mesa bem próximo. O palquinho era dela!
Cidinha vibrou com Você vai ver, improvisou em Wave, cantou gritada o clássico Chega de Saudade e outras mais que eu não vou me lembrar, pois tinha que dividir a atenção que dava a Cidinha com meu prato de Chop Suey e minha Coca-Cola de meio litro. Eu não agüentaria estar no lugar dessa devota de Fátima, como é cantar, soltar sua voz, desejar tocar as pessoas com seu canto e dá de cara com uma pessoa metendo a cara num hambúrguer. Que degradante! Centenas de pessoas preferiam um hambúrguer a ver Cidinha de Fátima dar uma aula de Bossa Nova. Essas pessoas não verão diferença se no lugar de Cidinha tivessem colocado Tiririca. Naquele dia, Cidinha e seu marido teriam acabado o show, pego o cachê e rumado para casa pensando em quitar a taxa de condomínio atrasada.

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